
Todos os anos, em janeiro, as marcas de tintas anunciam a cor do ano, e em março ela já está nas almofadas das montras, de Lisboa a Londres. No janeiro seguinte, a maior parte dessas almofadas está num armário, e ainda bem, porque uma almofada era o sítio certo para ela.
É quase tudo o que defendemos sobre tendências de decoração numa casa no Algarve. Deixe-as à vontade nas coisas baratas de mudar e longe das caras, e passe cada uma pela luz daqui antes de comprar, porque uma cor que resulta num apartamento em Londres pode parecer outra numa parede branca em Albufeira.
Tendências de decoração e as duas velocidades de uma casa
A camada rápida de uma sala é a parte leve, as almofadas e as mantas, e ainda a tinta, se tiver coragem. Aí, uma tendência custa pouco. Se a cor deste ano se revelar um erro, são quarenta euros e uma tarde de sábado para corrigir.
A camada lenta é tudo o que precisa de uma carrinha: o sofá, a mesa de jantar, a cama, os roupeiros embutidos na parede. Estas peças compram-se com outra paciência. A pergunta útil é se ainda vai gostar de uma peça quando ela deixar de estar na moda, o que costuma acontecer mais ou menos quando a fatura desbota.
Os problemas começam quando as camadas trocam de lugar. Um sofá na cor deste ano prende-o durante dez anos ao gosto de outra pessoa, e uma almofada bege tímida em cima de um bom cadeirão clássico desperdiça o único sítio onde arriscar não custava nada.
Tendências que voltam sempre
De poucos em poucos anos, as revistas redescobrem os materiais naturais e o trabalho artesanal e anunciam-nos como novidade. Já foram redescobertos tantas vezes que a aposta mais segura na decoração é, provavelmente, o que foi redescoberto da última vez.
As curvas são o que está a dar agora: sofás curvos e mesas redondas. Gostamos delas, mas uma curva deve ganhar o lugar pela forma como as pessoas circulam à volta dela, e não pela data da revista. O mobiliário por medida recebe um tratamento parecido, apresentado como o regresso do luxo, quando as oficinas portuguesas nunca deixaram de o fazer. Neste ponto somos suspeitos, admitimos.
A sustentabilidade seguiu o mesmo caminho. Quando as pessoas começaram a perguntar de onde vinha a madeira antes de perguntarem o preço, deixou de ser tendência e passou a ser uma pergunta normal, e é mais ou menos por isso que escrevemos sobre decoração sustentável.
Filtrar as tendências pela luz do Algarve
A maior parte dos relatórios de tendências é escrita em Londres e em Nova Iorque, para céus cinzentos e muita luz artificial. Depois chegam a um sítio onde o sol faz boa parte da decoração, quer se queira quer não.
As cores saturadas que parecem ricas num apartamento virado a norte em Copenhaga podem ficar estridentes contra uma parede branca daqui em julho. As paletas terrosas que os relatórios andam sempre a “descobrir”, o verde-salva e a terracota, são mais ou menos as cores que os montes por trás da costa já têm em agosto, e é provavelmente por isso que continuam a resultar dentro de casa. Quando uma tendência e a luz discordam, ficamos do lado da luz; o artigo sobre como escolher cores para as paredes explica como testar uma amostra antes de pintar a parede toda.
Tendências de decoração a acompanhar este ano
Esta é a parte do artigo que vamos reescrever todos os anos. Para já, os relatórios concordam em algumas coisas. As curvas estão a manter-se em vez de desaparecer. O bouclé continua por todo o lado, o que num sofá perto da praia merece segunda reflexão, porque a areia entra depressa numa trama de caracol. A iluminação que muda de temperatura ao longo do dia está a deixar de ser um gadget para passar a ser coisa que se espera. E misturar peças herdadas ou vintage com peças novas continua a ganhar terreno, um assunto sobre o qual temos opinião.
As duas lojas da H&P Mobiliário e Decoração, em Albufeira e em Armação de Pêra, têm peças da camada lenta onde se pode sentar. Traga a página da revista, se a tiver; discute-se melhor com o sofá verdadeiro à frente.
