
Todas as primaveras alguém telefona para a loja de Albufeira por causa de uma marca branca num aparador de nogueira. A história é quase sempre a mesma: um copo de água pousado um minuto por uma visita no verão anterior e descoberto na manhã seguinte. O aparador estava impecável havia dez anos. O mais provável é que volte a ficar, e já lá vamos.
Cuidar dos móveis nesta parte do país raramente tem a ver com sujidade. As chamadas que recebemos são quase todas sobre o sol que entra pelo vidro, ou sobre o que a humidade fez a uma casa que ninguém abriu entre outubro e a Páscoa, e a resposta às duas está no sítio onde os móveis ficam e na maneira como a casa se deixa, muito mais do que em qualquer produto do armário das limpezas. Um pano só ligeiramente húmido trata de quase toda a limpeza de que uma boa peça vai precisar.
O sol de um lado só
O pior sítio na maior parte das casas daqui é o braço do sofá mais perto de uma janela virada a sul. Um verão chega para lhe tirar a cor. A madeira também muda, só que não como se espera: a cerejeira escurece com a luz e a nogueira aclara, e ao levantar um candeeiro de uma mesa ao fim de três anos aparece um círculo na cor antiga, como a marca do biquíni. Cortinas leves corridas nas horas do meio do dia resolvem quase tudo.
Os aquecedores fazem uma coisa parecida, mais devagar. Uma mesa maciça encostada a um seca mais depressa desse lado e pode abrir ao longo do veio, e o ar condicionado a soprar direto para um aparador em agosto não é muito mais simpático. Costumamos sugerir um palmo de distância, o que num T1 nem sempre existe; aí resta virar as palhetas para outro lado.
Os meses em que ninguém está em casa
Muitas casas por cá passam o inverno fechadas, casas de férias e alojamento local sobretudo, e a humidade instala-se onde ninguém vê. As casas habitadas também não escapam por completo, que os invernos algarvios são mais húmidos por dentro do que quem cá vive gosta de admitir. O caso clássico é a parte de trás de um roupeiro encostado a uma parede exterior. A uma ou duas ruas do mar, em Armação de Pêra por exemplo, há também sal no ar, e a maresia nota-se primeiro nos puxadores de metal, que perdem o brilho.
Antes de fechar a casa, afaste os roupeiros dois dedos dessas paredes e deixe as portas dos armários entreabertas. Uma vizinha que abra as janelas num dia seco de poucas em poucas semanas vale mais do que qualquer produto à venda; não havendo, um desumidificador com temporizador. Tape o sofá com um lençol velho de algodão e não com plástico, que retém precisamente a humidade que devia manter de fora. (O mobiliário de jardim é outra conversa, e já a tivemos no artigo sobre mobiliário de jardim no Algarve.)
Lustra-móveis, limões e a marca do copo
Quase tudo o que corre mal dentro de casa corre mal com boa intenção. O spray de lustrar é o suspeito do costume. Usado todas as semanas durante anos, deixa uma película que agarra o pó e embacia o acabamento que devia proteger, e quando nos perguntam como recuperar o brilho, a resposta sincera costuma ser parar. As mesas oleadas são a exceção e gostam de óleo uma ou duas vezes por ano. As lacadas não, e óleo sobre laca fica peganhento. Se não souber qual tem, pergunte a quem a fez, ou mande-nos uma fotografia.
O mármore leva com os remédios caseiros preferidos da internet, vinagre e limão, e qualquer um dos dois o corrói em minutos. Basta água com uma gota de sabão neutro, e uma base debaixo do copo de vinho.
Nos tecidos, o que se entorna absorve-se com um pano, sem esfregar. As capas que saem podem ir à lavandaria durante anos, que é uma das razões por que insistimos tanto nelas no artigo sobre como escolher o sofá; para os sofás sem capas amovíveis, o nosso atelier faz limpeza de estofos e tratamento antinódoas, e tratar um sofá novo antes da primeira nódoa é muito mais fácil do que depois.
Uma cadeira que começou a abanar numa junta são dez minutos com cola de madeira agora. Deixada para o próximo almoço de domingo, costuma acabar com uma perna partida. O folheado a levantar já é outra história e vale a pena mostrá-lo a um restaurador antes de experimentar o que quer que seja da internet, tal como as peças herdadas em geral, a cómoda da avó incluída, sobre as quais escrevemos em misturar móveis antigos e modernos.
Quanto ao aparador de nogueira. Uma marca branca quer dizer que a humidade ficou presa no acabamento e não chegou à madeira, e um secador no mínimo, afastado e a mexer devagar, tira a maior parte delas em poucos minutos. Uma marca escura já passou para dentro, e essa também vai para o restaurador.
Escolher peças que se possam cuidar é a outra metade disto, e está no artigo sobre decoração sustentável. Se quiser uma segunda opinião sobre um móvel seu, traga uma fotografia à H&P Mobiliário e Decoração, em Albufeira ou em Armação de Pêra, ou envie-nos. Quando é uma peça que vendemos, ainda costumamos saber de que fábrica veio.
